Achas que és livre porque fazes o que queres. Mas quase ninguém pergunta a coisa mais óbvia: quem escolheu aquilo que tu queres?
Repara no que acontece antes de começares a querer alguma coisa. Vês um carro, uma casa, um corpo, uma vida inteira. Alguém mostrou isso primeiro, num anúncio, num feed, numa comparação que nem tinhas pedido para fazer. E de repente aquilo que nunca te tinha ocupado a cabeça passa a ser aquilo que sentes que te falta.
Isso parece escolha, mas é mais parecido com obediência vestida de vontade.
Toda a gente obedece a alguma coisa. Uns obedecem a tendências. Outros ao dinheiro, ou à opinião de quem os rodeia. Há quem obedeça aos próprios desejos, e esse é talvez o dono mais cansativo de todos, porque nunca fica satisfeito. Dás-lhe o que pede hoje, e amanhã já pede mais.
O mais incómodo é que isto raramente parece prisão. Sentimo-nos livres precisamente enquanto obedecemos, porque a obediência veio disfarçada de escolha. Ninguém se sente escravo a fazer scroll. Sente-se, no máximo, um bocado vazio depois, sem perceber muito bem porquê.
A ideia central do Tawheed, no Islão, é justamente esta: submeteres-te só a Quem te criou liberta-te de teres de te submeter a tudo o resto. Não porque deixes de desejar coisas. Mas porque deixas de precisar da validação de quem as vê, e deixas de viver com medo de um futuro que nunca controlaste sozinho.
Não tem a ver com encolher os ombros e deixar a vida acontecer, mas com escolher a quem respondes, em vez de responder automaticamente a quem grita mais alto naquele momento, seja um algoritmo, seja a pessoa ao lado a comparar a vida dela com a tua.
A questão nunca foi se fazes o que queres. É quem decidiu o que tu queres. De vez em quando, pergunta-te: estás mesmo livre, ou só mudaste de dono?