Todos os anos, milhões de pessoas vão para Makkah fazer o Hajj. Visto de fora, custa a perceber porquê. Calor, multidões, cansaço, dias inteiros a andar. O que interessa mesmo só se percebe depois, quando a pessoa regressa a casa.
A primeira coisa que o Hajj tira é a roupa que usas normalmente para dizer aos outros quem és. Os homens vestem duas peças simples de pano branco sem costuras. As mulheres, roupa e véu simples. Ninguém sabe, só de olhar, se a pessoa ao lado é milionária ou não tem nada. Antes de ensinar seja o que for, o Hajj já apagou a primeira forma como costumamos julgar alguém.
Depois tira o resto. O nome que construíste, o cargo, a imagem cuidada. À volta do Kaaba caminham juntas as mesmas pessoas que, em qualquer outro lugar do mundo, estariam divididas por filas diferentes, bairros diferentes, contas bancárias diferentes.
Há um momento, no Dia de Arafah, em que isso fica ainda mais claro. Milhões de pessoas, no mesmo sítio, a pedir perdão ao mesmo tempo, como se fosse um ensaio do Dia do Juízo. Ninguém ali é mais importante do que o que está ao lado.
Uma parte do ritual é caminhar entre as montanhas de Safa e Marwa, repetindo o percurso desesperado de Hajar à procura de água para o filho, no meio do deserto. Não é uma metáfora vaga. É uma lembrança concreta de que a fé, muitas vezes, nasce precisamente do momento em que já não temos mais nada a controlar.
E talvez seja essa a razão pela qual tanta gente volta do Hajj diferente. Durante uns dias, desaparece o dinheiro, desaparece a fama, desaparece o personagem que cada um constrói para o mundo ver. E sobra só uma coisa, ou melhor, sobram só duas: a pessoa, e Allah.
É desconfortável perceber quanto do que chamamos identidade é, na verdade, roupa que vestimos. E é por isso que o Hajj ensina através daquilo que retira antes de ensinar através daquilo que acrescenta.